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Guia completo · Documentação do projeto

Documentação de projeto de arquitetura: o que entra em cada etapa, como organizar e como manter em dia

Equipe Croqui Atualizado em 21 min de leitura

Resposta curta

A documentação de projeto de arquitetura é o conjunto de peças gráficas (plantas, cortes, fachadas, detalhes) e escritas (memorial, caderno de especificações, quadros, lista de pranchas) que descreve o projeto em cada etapa. A ABNT NBR 16636-2:2017 define as etapas e a NBR 6492:2021 define o conteúdo e a apresentação de cada documento.

A documentação de projeto de arquitetura é tudo o que sai do escritório para que outra pessoa entenda, aprove, orce e construa o que você projetou: pranchas com plantas, cortes e fachadas, e os documentos escritos que acompanham os desenhos, como memorial descritivo, caderno de especificações e quadros. Ela muda de tamanho a cada etapa. No estudo preliminar cabe em poucas folhas; no executivo vira um pacote com dezenas de pranchas e textos que precisam concordar entre si.

O problema raramente é saber o que entregar. É manter tudo coerente quando o projeto muda. Uma parede que anda 40 cm mexe na planta, no corte, no quadro de áreas, no quadro de esquadrias e no memorial.

O que é a documentação de um projeto de arquitetura?

A documentação de um projeto de arquitetura é o conjunto de documentos técnicos, gráficos e escritos, que registra as decisões do projeto em cada etapa. A ABNT NBR 6492:2021 divide esses documentos em duas categorias: documentos gráficos (desenhos, fotos, esquemas) e documentos escritos (peças em que o conteúdo principal é texto ou número).

Na rotina do escritório, isso vira três blocos:

  • Peças gráficas: as pranchas com plantas, cortes, fachadas, elevações, detalhes e perspectivas.
  • Peças escritas: memorial, caderno de especificações, quadros de áreas, de esquadrias e de ambientes, lista de pranchas e, no executivo, quantitativos e planilha orçamentária.
  • Documentos de responsabilidade e aprovação: o RRT no CAU, os aceites do cliente em cada etapa e os documentos que a prefeitura exige para o alvará.

Cada etapa usa um subconjunto disso. Saber qual é o primeiro passo para não entregar a menos (e ser cobrado) nem a mais (e trabalhar de graça).

Quais normas regem a documentação de projeto de arquitetura?

As etapas do projeto são definidas pela ABNT NBR 16636, partes 1 e 2, de 2017, e o conteúdo dos documentos de cada etapa é definido pela ABNT NBR 6492:2021. A apresentação física das folhas segue também a NBR 16752:2020. Por cima disso vêm a legislação municipal, que manda no projeto legal, e as regras do CAU sobre responsabilidade técnica.

Um ponto que ainda confunde muita gente: a NBR 13532, citada em muito modelo de contrato e de memorial, não está mais em vigor. A ABNT NBR 16636-2:2017 traz no prefácio que “cancela e substitui as ABNT NBR 13531:1995 e ABNT NBR 13532:1995”. As partes 1 e 2 da NBR 16636 constam como vigentes no catálogo, com confirmação publicada em maio de 2022.

Norma ou regraO que defineOnde pesa na documentação
ABNT NBR 16636-1:2017Diretrizes e terminologia (definições de memorial, caderno de especificações, as built, aceite de etapas)Contrato, escopo, aceite do cliente
ABNT NBR 16636-2:2017Fases e etapas do projeto arquitetônico e o que cada uma produzCronograma e entregáveis por etapa
ABNT NBR 6492:2021Conteúdo dos documentos por etapa, formatos, dobramento, carimbo, representação gráficaPranchas, carimbo, memorial, lista de pranchas
ABNT NBR 16752:2020Formato das folhas, margens, legenda, dobramento e escalas em desenho técnicoMontagem das folhas
ABNT NBR 9050:2020AcessibilidadeConteúdo do projeto e conferência antes do protocolo
Lei nº 12.378/2010 e Resolução CAU/BR nº 91/2014Registro de Responsabilidade TécnicaRRT do projeto
Código de obras e plano diretor do municípioExigências do projeto legalPranchas e quadros para a prefeitura

A própria ABNT NBR 16636-1:2017 avisa que a aplicação integral ou parcial dos requisitos deve ser combinada em contrato, projeto a projeto. Para uma reforma de apartamento, ninguém espera o pacote completo de um hospital. O que a norma dá é a lista de onde partir e a linguagem comum para escrever o escopo.

Quais são as peças gráficas de um projeto de arquitetura?

As peças gráficas são os desenhos em escala que mostram o edifício: planta de situação, implantação, plantas dos pavimentos, planta de cobertura, cortes, fachadas, elevações internas e detalhes. Elas aparecem em todas as etapas a partir do estudo preliminar, e o que muda é o nível de informação de cada uma.

PeçaO que mostraPrimeira etapa em que aparece
Planta de situaçãoO lote em relação à quadra, aos vizinhos e aos logradourosProjeto legal (e no levantamento, como planta cadastral)
Planta de implantaçãoEdificação no lote, recuos, cobertura projetada, áreas permeáveis e impermeáveis, acessosEstudo preliminar
Plantas dos pavimentosAmbientes, paredes, esquadrias, circulação, cotas gerais e de nívelEstudo preliminar
Planta de coberturaÁguas, inclinações, escoamento pluvialEstudo preliminar (desenvolvida no anteprojeto)
Cortes longitudinais e transversaisAlturas, níveis, estrutura principal, relação com o terrenoEstudo preliminar
Fachadas e elevaçõesVedos externos, esquadrias, materiais aparentesEstudo preliminar
Detalhes e ampliaçõesÁreas molhadas, escadas, esquadrias especiais, encontros construtivosAnteprojeto (detalhes principais) e executivo
Perspectivas e maquetesLeitura espacial para o clienteOpcionais em qualquer etapa

A NBR 6492:2021 traz recomendações de representação que valem a pena seguir à risca, porque a prefeitura e a obra leem por elas: a planta deve cobrir todos os pavimentos, deixando claro quando há repetição; o plano de corte da planta é recomendado a 1,50 m de altura, com exceções informadas; os cortes devem passar onde mostram o máximo de informação construtiva; e é recomendado representar todas as fachadas.

A norma lista como escalas usuais 1:1, 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:25, 1:50, 1:100, 1:200, 1:250, 1:500, 1:1000 e 1:2000. Na prática do escritório, plantas e cortes de uma casa saem em 1:50 ou 1:100, a situação em 1:500 ou 1:1000 e os detalhes em 1:20, 1:10 ou 1:5. A escala, o formato e a montagem das folhas têm um post só deles: veja formatos de prancha, carimbo e escalas.

Linhas, cotas, níveis e símbolos de cada uma dessas peças seguem as convenções explicadas em simbologia de planta baixa.

Quais são as peças escritas de um projeto de arquitetura?

As peças escritas são os documentos em que o conteúdo é texto ou número: memorial justificativo, memorial descritivo, caderno de especificações, quadros (áreas, esquadrias, ambientes, acabamentos), lista de pranchas e, no executivo, memorial quantitativo e planilha orçamentária. Elas não repetem o desenho; dizem o que o desenho não consegue mostrar.

Memorial justificativo

O memorial justificativo explica o partido do estudo preliminar. A NBR 16636-1 o define como o documento que “evidencia o atendimento às condições estabelecidas no programa de necessidades” e apresenta o partido adotado. A NBR 6492 o trata como opcional no estudo preliminar. Em concurso e em projeto público ele costuma ser exigido; em residência, muitas vezes vira a conversa da reunião de apresentação.

Memorial descritivo

O memorial descritivo descreve o que será construído e como. Pela NBR 16636-1, é o documento “complementar aos desenhos do projeto” que discrimina as atividades técnicas, as especificações e os métodos construtivos. Ele entra a partir do anteprojeto e pode ser exigido pela prefeitura no projeto legal, conforme o município. É também o documento que mais sofre com copia e cola: o memorial que nasce do projeto anterior e chega ao cliente com o nome do outro cliente. O passo a passo para montar um está em como fazer memorial descritivo de arquitetura, e dá para partir de um memorial descritivo gerado do modelo, revisado seção a seção, em vez de um arquivo antigo.

Para partir de um texto pronto, o modelo de memorial descritivo residencial traz um memorial completo de uma casa térrea, seção por seção, com notas do que adaptar.

Caderno de especificações

O caderno de especificações diz qual material vai onde e com qual desempenho. A NBR 16636-1 o define como o documento que indica os materiais especificados, os requisitos de desempenho planejados e os locais de aplicação. Na obra, é o documento que o engenheiro abre para comprar: porcelanato 90 x 90 retificado no estar, rejunte epóxi nos banheiros, tinta acrílica fosca nas paredes internas, cada item com o ambiente onde se aplica.

O passo a passo, com codificação dos itens e modelo de fichas, está em como fazer o caderno de especificações.

Quadro de áreas

O quadro de áreas resume área do terreno, área construída por pavimento, área computável e não computável, taxa de ocupação, coeficiente de aproveitamento e taxa de permeabilidade. É a peça que a prefeitura confere primeiro, e a que mais se desatualiza, porque cada mudança de planta mexe nela. O cálculo, com exemplo de lote, está em como calcular o quadro de áreas, os conceitos de área computável e área construída estão no glossário, e o quadro de áreas legal tirado direto do modelo evita a planilha paralela.

Quadro de esquadrias

O quadro de esquadrias lista cada tipo de porta e janela com código (P1, J3), dimensões, peitoril, material, tipo de abertura e quantidade. Ele precisa bater com as plantas: se a J4 sumiu da planta, ela não pode continuar no quadro. Também é a base para a conferência de ventilação e iluminação que o código de obras pede por ambiente.

As colunas, a codificação P1 e J1 e um exemplo completo de casa estão no guia do quadro de esquadrias.

Quadro de ambientes e de acabamentos

O quadro de ambientes lista cada ambiente com área, pé-direito e acabamentos de piso, parede, rodapé e forro. Em interiores e em projetos com muitas áreas molhadas, ele é a espinha do executivo. A NBR 6492 pede no programa de necessidades uma planilha com ambientes, dimensões, áreas mínimas, usuários e atividades; o quadro de ambientes do anteprojeto é a evolução dessa planilha.

Lista de pranchas e documentos

A lista de pranchas é a relação sequencial de todos os documentos gráficos e complementares do pacote. A NBR 6492:2021 a exige no anteprojeto e no executivo. Ela é o índice do projeto e o melhor lugar para registrar a revisão vigente de cada folha.

Memorial quantitativo e planilha orçamentária

No projeto executivo, a NBR 6492 pede ainda memorial quantitativo, com o somatório dos componentes e materiais, e planilhas orçamentárias. Em residência pequena, muitos escritórios combinam no contrato que o orçamento fica com a construtora; o importante é que isso esteja escrito, porque a norma lista os dois documentos como parte do executivo.

RRT

O RRT não é peça do projeto, mas sem ele o projeto não anda. A Lei nº 12.378/2010, no art. 45, determina que todo trabalho de competência privativa ou compartilhada seja objeto de Registro de Responsabilidade Técnica, e o art. 46 diz que o RRT define os responsáveis técnicos a partir da autoria e coautoria. O prazo está mais abaixo, na parte sobre a prefeitura.

O que vai no carimbo de uma prancha de arquitetura?

O carimbo fica no canto inferior direito da folha, no formato A4, e identifica o desenho e seus responsáveis. A NBR 6492:2021 lista as informações mínimas e o que deve ficar logo acima dele.

Informações mínimas do carimbo (NBR 6492:2021, 4.5.1):

  1. identificação da empresa;
  2. identificação do cliente e nome do projeto ou empreendimento;
  3. título do desenho;
  4. indicação sequencial do projeto (número ou letras);
  5. escala;
  6. local e data;
  7. autoria do desenho e do projeto;
  8. responsável(is) técnico(s);
  9. indicação da revisão;
  10. local para chancela de aprovação, quando aplicável.

Acima do carimbo (4.5.2): planta-chave, escala gráfica, numeração, descrição da revisão, convenções gráficas, notas gerais, desenhos de referência e legenda de símbolos.

A norma também pede que as cópias sejam dobradas até o formato A4, com aba à esquerda para fixar em pasta, e com o carimbo sempre visível. Os formatos usados vão do A0 (máximo) ao A4 (mínimo), da série A. O detalhamento de margens, legenda e dobramento está na ABNT NBR 16752:2020.

Dois erros aparecem toda semana: a revisão do carimbo que não muda quando a folha muda, e o responsável técnico que continua com o nome de quem saiu do escritório. Se o carimbo é um bloco com campos preenchidos à mão em cada folha, essas falhas são questão de tempo. Gerar as pranchas em folha ABNT com o carimbo do escritório a partir de um cadastro único resolve as duas.

O que se entrega em cada etapa do projeto de arquitetura?

Cada etapa da NBR 16636-2 tem entregáveis próprios, e a NBR 6492 detalha o conteúdo de cada um. A regra geral: o estudo preliminar mostra o partido em desenhos gerais, o anteprojeto fecha o partido com memorial e lista de pranchas, o projeto legal atende à prefeitura e o executivo traz tudo o que a obra precisa.

Etapa (sigla da NBR 16636-2)Peças gráficasPeças escritas
Levantamento de dados (LV-ARQ)Plantas cadastrais da vizinhança, levantamento planialtimétrico, plantas e cortes do terreno e das edificações existentesRelatórios: dados ambientais, urbanísticos e legais (TO, CA, gabarito, recuos), fotos
Programa de necessidades (PN-ARQ)Organograma funcional, esquemas básicosPlanilha de ambientes, áreas mínimas, usuários e atividades
Estudo de viabilidade (EV-ARQ)Estudos volumétricos, plantas e cortes esquemáticos de implantaçãoPlanilha de áreas construídas, livres e permeáveis; fluxos e acessos
Estudo preliminar (EP-ARQ)Implantação, plantas, cortes, elevações, detalhes se necessárioMemorial justificativo (opcional)
Anteprojeto (AP-ARQ)Implantação, terraplenagem, plantas, coberturas, cortes, elevações, detalhes principaisMemorial descritivo do projeto e dos materiais; lista de pranchas
Projeto para licenciamentos (PL-ARQ)O que a legislação local pedirO que a legislação local pedir (quadro de áreas, memorial, formulários)
Projeto executivo (PE-ARQ)Implantação com locação, terraplenagem, plantas, coberturas com detalhes, cortes, elevações, áreas molhadas ampliadas, detalhesMemoriais descritivos, memorial quantitativo, planilhas orçamentárias, lista de pranchas
As builtÚltima revisão do executivo, fiel à obraRegistro das alterações feitas na obra

O detalhe de cada etapa, com exemplo de casa e o que costuma voltar do cliente, está em etapas do projeto de arquitetura. Os verbetes de estudo preliminar, anteprojeto, projeto legal, projeto executivo e as built servem de consulta rápida.

Em cada etapa, a arquitetura precisa conversar com estrutura e instalações; o processo está em compatibilização de projetos.

Como organizar a documentação de um projeto de arquitetura?

Organize a documentação por etapa e por revisão, com um código único para cada documento e uma lista de pranchas que diga qual é a versão vigente de cada folha. O objetivo é que qualquer pessoa da equipe, ou do cliente, ache o documento certo sem perguntar.

Um padrão que funciona em escritório pequeno:

  1. Código do projeto. Uma sigla curta e fixa para o projeto inteiro, por exemplo CLG para a Casa Lagoa.
  2. Código da etapa. EP, AP, PL, PE, AB (as built), seguindo as siglas da NBR 16636-2 para todo mundo falar a mesma língua.
  3. Disciplina e número da folha. ARQ-01, ARQ-02, sempre com dois dígitos, para a ordenação funcionar no explorador de arquivos.
  4. Revisão. R00 para a primeira emissão, R01 para a primeira revisão, e assim por diante. Nunca “final”, “final2” ou “agora vai”.
  5. Nome do arquivo. Junte tudo: CLG_AP_ARQ-03_R02.pdf. O nome do arquivo e o carimbo dizem a mesma coisa.

A lista de pranchas registra, para cada folha, o título, a escala, o formato e a revisão vigente. Quando a R02 de uma folha sai, a lista é a primeira coisa a mudar. Guarde as emissões anteriores numa pasta de histórico em vez de sobrescrever; quando a prefeitura ou o cliente perguntarem “o que mudou desde a última vez”, a resposta está lá.

A NBR 16636-1 recomenda que cada ciclo de coordenação e compatibilização seja documentado em relatórios ou atas arquivados. Num projeto residencial, isso pode ser uma página por revisão: data, o que mudou, quem pediu, quais folhas e documentos foram reemitidos. Parece burocracia até o dia em que o cliente jura que nunca pediu para tirar a janela da suíte.

Como manter a documentação consistente a cada revisão do modelo?

A documentação só fica consistente quando todas as peças saem da mesma fonte, o modelo, e quando cada revisão percorre a lista completa do que aquela mudança afeta. Quadro de áreas digitado à parte, memorial escrito sobre a versão anterior e pranchas atualizadas uma a uma são as três portas por onde a inconsistência entra.

Veja o que uma mudança pequena puxa. Numa casa de 180 m² em lote de 12 x 30 m, o cliente pede no anteprojeto para aumentar a suíte em 1,20 m, avançando sobre o recuo de fundos:

O que mudou no modeloPeças que precisam ser refeitas
Parede externa da suíte avança 1,20 mPlanta do pavimento, planta de cobertura, implantação (recuo), cortes que passam pela suíte, fachada de fundos
Área construída aumentaQuadro de áreas: área construída, área computável, taxa de ocupação, coeficiente de aproveitamento, permeabilidade
Janela da suíte troca de J2 para J5, maiorQuadro de esquadrias, fachada, conferência de ventilação e iluminação do ambiente
Piso da suíte ganha 3,8 m²Quadro de ambientes, caderno de especificações (quantitativo de piso), memorial na seção de pisos
Tudo acimaRevisão no carimbo de cada folha alterada, lista de pranchas, registro da revisão

Uma mudança, mais de dez documentos. E o recuo de fundos precisa ser conferido de novo contra o plano diretor, porque 1,20 m pode ser a diferença entre aprovar e receber exigência.

Três hábitos reduzem o estrago:

  • O modelo é a fonte. Áreas, esquadrias e ambientes saem de um modelo BIM, não de uma planilha mantida à mão. Se o escritório modela no Revit ou no ArchiCAD, exportar o IFC é o caminho para que outras ferramentas leiam esses dados; o pilar sobre BIM e IFC para escritórios de arquitetura explica como.
  • Diff antes de reemitir. Antes de mandar a R02, compare com a R01: quais ambientes mudaram de área, quais esquadrias entraram ou saíram. É essa lista que define o que reemitir.
  • Revisão registrada em três lugares. Carimbo da folha, lista de pranchas e registro de revisões. Se um dos três não mudou, a revisão não está completa.

É exatamente esse retrabalho que motivou o Croqui. O Croqui é um software online para escritórios de arquitetura e interiores que transforma o modelo IFC ou DWG no pacote documental do projeto: quadros, quadro de áreas, memorial descritivo, pranchas ABNT e pré-checagem de conformidade, que se refazem a cada revisão do modelo. Quando um novo modelo sobe, a comparação entre revisões mostra o que mudou em ambientes, áreas e esquadrias, e os documentos são refeitos para você revisar e assinar.

O governo federal foi na mesma direção para as próprias obras. O Decreto nº 10.306/2020 estabeleceu que, desde a primeira fase de implantação do BIM, em 2021, os projetos federais de grande relevância incluam a extração de quantitativos e “a geração de documentação gráfica, extraída dos modelos”.

Numeração de revisões, nuvens, tabela de revisões e lista de emissões estão detalhadas no guia de revisão de projeto de arquitetura.

Quais são os erros mais comuns na documentação de projeto?

Os erros mais comuns são de coerência, não de desenho: números que não batem entre peças, revisões que não chegam a todas as folhas e textos herdados de outro projeto. Quase todos aparecem depois de uma revisão feita com pressa.

  1. Quadro de áreas diferente da planta. A área da planta foi atualizada, o quadro não. A prefeitura confere e devolve.
  2. Esquadria fantasma. A P4 saiu da planta na R02 e continua no quadro de esquadrias. A obra compra.
  3. Memorial de outro projeto. O memorial veio do projeto anterior e ainda fala em telha cerâmica quando a cobertura agora é laje impermeabilizada, ou traz o nome do cliente anterior.
  4. Corte desatualizado. A planta mudou o pé-direito do mezanino e o corte não. Fachada e corte também deixam de bater entre si.
  5. Carimbo parado. A folha mudou e o carimbo continua R01. Ou a data é a da primeira emissão.
  6. Lista de pranchas desatualizada. A lista diz ARQ-07 R01, a folha impressa é R02, e ninguém sabe qual foi para a obra.
  7. Arquivos sem versão. Cinco PDFs chamados “final” na pasta de rede, nenhum é o último.
  8. Norte e escala errados. A escala gráfica não acompanha a mudança de formato da folha, ou o norte foi girado junto com o desenho.
  9. Acessibilidade conferida no olho. Raio de giro do banheiro acessível, largura de porta e rampa conferidos na véspera do protocolo. A ABNT NBR 9050:2020 tem um checklist próprio no post sobre NBR 9050 no projeto.
  10. Aprovação do cliente perdida. O cliente aprovou pelo WhatsApp e ninguém acha a mensagem quando a obra pergunta.

Como entregar a documentação ao cliente?

Entregue por etapa, com um pacote fechado (PDFs das pranchas, documentos escritos e lista de pranchas) e peça o aceite formal antes de começar a etapa seguinte. A NBR 16636-1 trata isso como regra: a aceitação dos documentos de cada etapa pelo contratante é “requisito e condição indispensável” para iniciar a próxima, e o contratante deve formalizar essa aceitação.

Na prática, um bom pacote de entrega para o cliente tem:

  • Uma capa ou e-mail de envio dizendo qual etapa e qual revisão está sendo entregue.
  • As pranchas em PDF, uma por arquivo ou um único arquivo com índice, com o mesmo nome do carimbo.
  • Os documentos escritos da etapa, também em PDF, e os quadros em planilha quando o cliente ou a construtora forem usar os números.
  • A lista do que mudou desde a última entrega, quando for uma revisão.
  • Um jeito claro de aprovar ou pedir ajuste, item a item, que fique registrado.

O último ponto é o que mais falha. Aprovação por áudio, por ligação ou numa conversa de grupo não deixa rastro. Se o cliente pede ajuste na fachada e aprova o resto, isso precisa ficar escrito, com data. Um portal de aprovação do cliente por link, em que cada item é aprovado ou volta com pedido de ajuste, cumpre o papel que a norma descreve sem depender de e-mail perdido.

Lembre também que a NBR 16636-1 estabelece que documentos rejeitados pelo contratante devem ser revistos ou alterados apenas pelo autor. Se a construtora “ajusta” a planta por conta própria, a responsabilidade fica nebulosa. Escreva isso no contrato.

Como entregar a documentação à prefeitura?

Para a prefeitura, entregue o projeto para licenciamentos, ou projeto legal, no formato que o código de obras do município exige, com o RRT feito antes do protocolo. A NBR 6492:2021 é direta sobre isso: as formas de representação do projeto para licenciamentos “são variáveis em cada região e devem atender à legislação vigente para cada caso”.

Por isso não existe um pacote legal nacional. O que costuma ser pedido, com variação de cidade para cidade:

  • planta de situação e de implantação com recuos, afastamentos e áreas permeáveis;
  • plantas dos pavimentos, cortes e fachadas com cotas e níveis;
  • quadro de áreas com taxa de ocupação, coeficiente de aproveitamento e permeabilidade;
  • memorial descritivo, quando exigido;
  • formulários próprios do município e comprovante de responsabilidade técnica.

O RRT tem prazo. A Resolução CAU/BR nº 91/2014, com a redação dada pela Resolução nº 184/2019, diz que para as atividades do grupo Projeto o RRT deve ser feito até o término da atividade ou, conforme o caso, até a entrega final dos documentos ao contratante, antes de protocolar o projeto no órgão responsável pela análise, ou antes de divulgá-lo ao público. Na rotina, isso quer dizer: RRT emitido antes de subir o processo na prefeitura.

Antes de protocolar, confira o projeto contra o plano diretor e as normas de acessibilidade. Uma pré-checagem de conformidade ajuda a chegar sabendo onde olhar, mas não substitui a análise da prefeitura nem a responsabilidade de quem assina. O caminho completo, do protocolo ao alvará de construção e ao habite-se, está no pilar de aprovação de projeto na prefeitura.

O que é a documentação as built e quando ela entra?

A documentação as built, ou “como construído”, é a última revisão do projeto executivo, ajustada para representar a obra como ela ficou. A NBR 6492:2021 a define assim, e a NBR 16636-2 diz que, depois da obra, a documentação do projeto completo deve ser atualizada para o as built com anuência dos autores, do construtor e do cliente.

A NBR 16636-2 acrescenta dois pontos que pouca gente aplica: as alterações feitas durante a obra devem ser aprovadas em comum acordo entre cliente, construtores e projetistas antes de serem executadas, e os desenhos as built devem ser firmados por todos. A documentação fica guardada para uso, manutenção e operação do edifício.

Em residência, o as built é o que o proprietário vai procurar dali a cinco anos, quando precisar furar uma parede sem acertar o cano. Se o executivo foi mantido como fonte única durante a obra, o as built é uma revisão a mais. Se cada alteração ficou só no caderno do mestre de obras, é um levantamento novo.

Checklist da documentação de projeto de arquitetura

Use esta lista antes de cada emissão. Ela vale para qualquer etapa a partir do estudo preliminar.

  1. A etapa e a revisão estão no nome de todos os arquivos e no carimbo de todas as folhas.
  2. A lista de pranchas mostra a revisão vigente de cada folha e bate com os arquivos.
  3. As áreas do quadro de áreas batem com as áreas medidas no modelo, pavimento por pavimento.
  4. Cada esquadria do quadro existe na planta, e cada esquadria da planta existe no quadro.
  5. Cortes e fachadas foram regerados depois da última mudança de planta.
  6. O memorial foi relido nas seções tocadas pela revisão, e não há nome, material ou endereço de outro projeto.
  7. O caderno de especificações cobre todos os ambientes do quadro de ambientes.
  8. O carimbo traz responsável técnico, autoria, data, escala e revisão corretos.
  9. O RRT está emitido antes do protocolo ou da entrega final.
  10. O cliente recebeu a lista do que mudou e aprovou de forma registrada.

Se você só tiver tempo de conferir três itens, confira o 3, o 4 e o 10. São os que geram exigência da prefeitura, compra errada na obra e discussão com o cliente.

Perguntas frequentes

Quais documentos compõem um projeto de arquitetura?

Um projeto de arquitetura tem peças gráficas e peças escritas. As gráficas são planta de situação, implantação, plantas dos pavimentos, cobertura, cortes, fachadas, elevações e detalhes. As escritas são memorial justificativo, memorial descritivo, caderno de especificações, quadros de áreas, esquadrias e ambientes, lista de pranchas e, no executivo, memorial quantitativo e planilha orçamentária. A NBR 6492:2021 lista o que entra em cada etapa, e o RRT registra quem responde tecnicamente pelo trabalho.

Qual norma da ABNT define a documentação de um projeto de arquitetura?

São duas que trabalham juntas. A ABNT NBR 16636-2:2017 define as etapas do projeto arquitetônico e o que cada uma produz; ela cancelou e substituiu as antigas NBR 13531 e NBR 13532, de 1995. A ABNT NBR 6492:2021, Documentação técnica para projetos arquitetônicos e urbanísticos, detalha o conteúdo das peças por etapa, os formatos de folha, o dobramento e as informações mínimas do carimbo.

O que deve constar no carimbo de uma prancha de arquitetura?

Pela NBR 6492:2021, o carimbo fica no canto inferior direito, no formato A4, e traz no mínimo: identificação da empresa, cliente e nome do projeto, título do desenho, numeração sequencial, escala, local e data, autoria do desenho e do projeto, responsável técnico, indicação da revisão e espaço para chancela de aprovação quando houver. Acima dele ficam planta-chave, escala gráfica, descrição da revisão, notas gerais e legenda de símbolos.

Quando o arquiteto precisa fazer o RRT do projeto?

Pela Resolução CAU/BR nº 91/2014, com a redação dada pela Resolução nº 184/2019, o RRT de atividades do grupo Projeto deve ser feito até o término da atividade, até a entrega final dos documentos ao contratante, antes de protocolar o projeto no órgão que vai analisá-lo ou antes de divulgá-lo ao público. Na prática, o escritório resolve isso antes do protocolo na prefeitura, para não travar o processo.

Como manter a documentação do projeto atualizada quando o modelo muda?

Trate o modelo como a única fonte: áreas, esquadrias e ambientes saem dele, não de uma planilha paralela. A cada revisão, liste o que mudou, refaça os quadros e as pranchas afetadas, atualize o memorial nas seções tocadas e registre a revisão no carimbo e na lista de pranchas. Ferramentas que geram quadros, memorial e pranchas direto do IFC reduzem o retrabalho manual.

Fontes

  1. 01ABNT NBR 16636-1:2017: Elaboração e desenvolvimento de serviços técnicos especializados de projetos arquitetônicos e urbanísticos, Parte 1: Diretrizes e terminologia
  2. 02ABNT NBR 16636-2:2017: Elaboração e desenvolvimento de serviços técnicos especializados de projetos arquitetônicos e urbanísticos, Parte 2: Projeto arquitetônico
  3. 03ABNT NBR 6492:2021: Documentação técnica para projetos arquitetônicos e urbanísticos, Requisitos
  4. 04ABNT NBR 16752:2020: Desenho técnico, Requisitos para apresentação em folhas de desenho
  5. 05ABNT NBR 9050:2020: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos
  6. 06Lei nº 12.378/2010: Regulamenta o exercício da Arquitetura e Urbanismo e cria o CAU (Planalto)
  7. 07Resolução CAU/BR nº 91/2014: Registro de Responsabilidade Técnica (RRT)
  8. 08Decreto nº 10.306/2020: Utilização do BIM em obras e serviços de engenharia da administração pública federal (Planalto)

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