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Artigo · BIM e IFC

Compatibilização de projetos: o que é, como fazer e checklist de interferências

Equipe Croqui Atualizado em 6 min de leitura

Resposta curta

Compatibilizar projetos é confrontar arquitetura, estrutura, instalações elétricas e hidráulicas, ar-condicionado e demais disciplinas para achar e resolver interferências antes da obra: viga que corta janela, tubo que passa por pilar, duto sem espaço no forro. Em 2D, faz-se sobrepondo plantas e cortes; em BIM, cruzando modelos IFC e registrando cada conflito.

Este artigo faz parte do guia BIM e IFC para escritórios de arquitetura: o guia prático para quem é pequeno ou médio .

A compatibilização de projetos é o que evita a cena clássica da obra: a viga que corta a janela, o tubo de esgoto que precisa atravessar um pilar, o duto de ar-condicionado que não cabe no forro de 25 cm. Cada disciplina pode estar certa sozinha e errada junto com as outras. Este guia mostra o que é compatibilizar, com quais disciplinas, como fazer em 2D e em BIM, como organizar o fluxo de conflitos e um checklist das interferências mais comuns.

Ele faz parte do guia de BIM e IFC para escritórios.

O que é compatibilização de projetos

Compatibilizar é confrontar os projetos de todas as disciplinas de uma obra para achar e resolver interferências antes da execução. A interferência pode ser física (dois elementos no mesmo lugar) ou de informação (a planta de arquitetura diz uma cota de piso, o projeto estrutural diz outra).

Ela é serviço técnico com nome próprio:

  • a Tabela de Honorários do CAU/BR coloca a coordenação e compatibilização de projetos como subetapa do projeto, com percentual de referência de 10% (ou 20% na alternativa negociável) do valor do projeto arquitetônico, como mostra o guia quanto cobrar por projeto de arquitetura;
  • para fins de RRT, a Resolução CAU/BR nº 91/2014 trata a atividade 3.1, coordenação e compatibilização de projetos, e permite agrupá-la no mesmo RRT Simples das atividades de projeto, como explica o guia como emitir RRT.

Com quais disciplinas compatibilizar

DisciplinaConflitos típicos com a arquitetura
Estruturapilares em vãos e circulações, vigas cortando esquadrias ou rebaixando o pé-direito, furos em vigas
Instalações hidrossanitáriasprumadas e shafts, caimento de esgoto sob lajes e forros, ralos fora da paginação
Instalações elétricasquadros e caixas em paredes de vidro ou de drywall sem reforço, eletrodutos em lajes finas
Ar-condicionado e ventilaçãoespaço de forro para dutos, posição de evaporadoras e drenos, condensadoras na fachada
Prevenção e combate a incêndioescadas, portas corta-fogo, sprinklers no forro, hidrantes em circulações
Gástrajeto da tubulação, ventilação dos ambientes com aparelhos
Impermeabilizaçãorebaixos de laje em áreas molhadas, alturas de soleira
Elevadores e equipamentosdimensões de poço, casa de máquinas, cargas

Compatibilização em 2D: sobreposição

No fluxo em CAD, a compatibilização se faz sobrepondo as plantas e os cortes das disciplinas, cada uma numa cor, e procurando conflitos visualmente.

  1. Padronize as bases: mesma origem, mesma escala, mesmos eixos.
  2. Sobreponha por pavimento: arquitetura + estrutura, depois + hidráulica, depois + elétrica e ar-condicionado.
  3. Confira em corte os pontos críticos: forros, vigas de transição, banheiros empilhados.
  4. Registre cada conflito numa planilha com local, disciplinas, descrição e responsável.
  5. Distribua, cobre, confira a revisão.

O limite do 2D é a altura: uma planta sobreposta não mostra que o duto e a viga estão na mesma cota. Por isso os cortes nos pontos críticos são obrigatórios.

Compatibilização em BIM: detecção de conflitos

Em BIM, cada disciplina entrega seu modelo, em geral em IFC, e os modelos são reunidos num modelo federado para verificação.

  1. Combine as regras antes: versão do IFC, origem e coordenadas compartilhadas, nomes de pavimentos, nível de desenvolvimento de cada etapa. O guia como exportar IFC do Revit e do ArchiCAD mostra as configurações.
  2. Reúna os modelos num software de verificação ou de coordenação.
  3. Rode a detecção de conflitos por pares de disciplinas (arquitetura x estrutura, estrutura x hidráulica, forro x dutos) com tolerâncias definidas.
  4. Filtre: muitos conflitos detectados são irrelevantes (um tubo que encosta numa parede de drywall que ele vai atravessar de fato) ou repetidos. A análise humana separa o que importa.
  5. Registre e atribua cada conflito, com vista e elementos, a quem resolve.
  6. Verifique na rodada seguinte se foi resolvido.

BCF: o conflito viaja sem o modelo

O BCF (BIM Collaboration Format) é o formato aberto da buildingSMART para trocar apontamentos sobre modelos: localização, vista, elementos envolvidos, descrição, responsável e status. A Graphisoft, por exemplo, lista o BCF entre os padrões abertos que o Archicad suporta. Com ele, o conflito encontrado no software de verificação aparece no software de modelagem de quem precisa resolvê-lo, e a resposta volta pelo mesmo caminho.

Quando compatibilizar

EtapaO que compatibilizar
Estudo preliminarlançamento estrutural (malha de pilares), shafts, posição de áreas técnicas
Anteprojetopré-dimensionamento de vigas e lajes, prumadas, espaço de forro, casa de máquinas
Projeto legalo que afeta áreas, alturas e acessos aprovados
Projeto executivointerferências detalhadas, furos, passagens, detalhes de encontro
Obramudanças de execução, registradas para o as built

Compatibilizar só no executivo é o erro mais caro: a mudança de um pilar nesse ponto refaz planta, fachada e detalhes. Rodadas leves nas etapas iniciais custam pouco e evitam a rodada pesada no fim.

Checklist de interferências mais comuns

  • Pilares dentro de vãos de porta, janela ou circulação
  • Vigas que reduzem o pé-direito livre abaixo do mínimo ou cortam esquadrias
  • Altura de forro insuficiente para dutos, tubulações e luminárias embutidas
  • Prumadas e shafts desalinhados entre pavimentos
  • Caimento de esgoto incompatível com a altura disponível
  • Ralos e grelhas fora da paginação ou nas áreas de manobra acessíveis
  • Rebaixos de laje de áreas molhadas não previstos na estrutura
  • Quadros elétricos e caixas em paredes sem espessura ou reforço
  • Condensadoras e drenos sem lugar na fachada ou na área técnica
  • Escadas e saídas de emergência com dimensões do projeto de incêndio diferentes da arquitetura
  • Cotas de nível divergentes entre arquitetura e estrutura (N.A. x N.O.)
  • Furos em vigas sem aprovação do projetista estrutural

Organizando o fluxo de conflitos

Cada conflito precisa de: identificador, local (pavimento, eixos), disciplinas, descrição, imagem ou vista, responsável, prazo e status (aberto, em análise, resolvido, verificado). Sem esse registro, o mesmo conflito volta três vezes e ninguém sabe se foi resolvido.

As ocorrências também fazem parte da comunicação com os projetistas: mandar o conflito com imagem e medida resolve mais rápido do que uma reunião genérica. O Croqui é um software online para escritórios de arquitetura e interiores que transforma o modelo IFC ou DWG no pacote documental do projeto: quadros, quadro de áreas, memorial descritivo, pranchas ABNT e pré-checagem de conformidade, que se refazem a cada revisão do modelo. No portal de aprovação por link, o envio para o engenheiro pode incluir as ocorrências de compatibilização, cada uma com severidade, pavimento, medida e recorte da planta, que ficam em análise até o retorno.

Erros comuns na compatibilização

  1. Compatibilizar só no executivo.
  2. Bases desalinhadas (origem, eixos, níveis) entre disciplinas.
  3. Tratar todo conflito detectado como real e afogar a equipe em falsos positivos.
  4. Resolver por telefone, sem registro.
  5. Não verificar a revisão que diz ter resolvido o conflito.
  6. Escopo de coordenação fora do contrato, feito de graça pelo arquiteto.

Perguntas frequentes

O que é compatibilização de projetos?

É o processo de confrontar os projetos das diferentes disciplinas de uma obra para identificar e resolver interferências físicas e de informação antes da execução. Envolve arquitetura, estrutura, instalações elétricas, hidrossanitárias, de gás, de ar-condicionado e outras. Ela é um serviço técnico próprio: a Tabela de Honorários do CAU a trata como subetapa do projeto, e há atividade específica de coordenação e compatibilização para fins de RRT.

Quem é responsável pela compatibilização de projetos?

Quem foi contratado para coordenar e compatibilizar, o que precisa estar no contrato. Muitas vezes é o arquiteto, como autor do projeto que organiza os demais; em obras maiores, pode ser um coordenador de projetos contratado à parte. Cada projetista continua responsável pela própria disciplina. A coordenação e compatibilização de projetos é atividade com RRT próprio, que pode entrar no mesmo RRT Simples do projeto.

Qual a diferença entre compatibilização em 2D e em BIM?

Em 2D, sobrepõem-se plantas e cortes das disciplinas e procuram-se conflitos visualmente, o que depende da atenção de quem confere e deixa passar interferências em altura. Em BIM, os modelos das disciplinas são reunidos, em geral por IFC, e um software de verificação detecta automaticamente sobreposições de geometria. Os conflitos detectados ainda precisam de análise humana, porque muitos são falsos ou irrelevantes.

O que é BCF na compatibilização?

BCF (BIM Collaboration Format) é um formato aberto da buildingSMART para trocar apontamentos sobre um modelo: cada apontamento leva a localização, a vista, os elementos envolvidos, a descrição e o responsável. Ele permite que o conflito encontrado num software de verificação apareça no software de modelagem de quem precisa resolver, sem trocar o modelo inteiro.

Fontes

  1. 01CAU/BR: Resolução nº 91/2014, Registro de Responsabilidade Técnica (texto com alterações)
  2. 02CAU/BR: Tabelas de Honorários, Módulo I: Remuneração do Projeto Arquitetônico de Edificações
  3. 03Graphisoft: Archicad (suporte a IFC, BCF e IDS)
  4. 04buildingSMART: Industry Foundation Classes (IFC)
  5. 05ABNT NBR 6492:2021 - Documentação técnica para projetos arquitetônicos e urbanísticos: Requisitos (Target Normas)

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