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Guia completo · BIM e IFC

BIM e IFC para escritórios de arquitetura: o guia prático para quem é pequeno ou médio

Equipe Croqui Atualizado em 21 min de leitura

Resposta curta

BIM para escritório de arquitetura é modelar o projeto como uma base de dados (paredes, ambientes, esquadrias, com propriedades) e tirar dela desenhos, quadros e quantidades. O IFC é o formato aberto da buildingSMART, norma ISO 16739-1:2024, que leva esse modelo para outros programas sem depender do software de origem.

BIM para escritório de arquitetura não é comprar uma licença de Revit e passar a desenhar em 3D. É trocar o desenho como fonte da verdade por um modelo que sabe o que cada coisa é: esta linha é uma parede de 15 cm, este retângulo é a suíte com 14,2 m², esta abertura é a janela J3 de 1,20 x 1,00 m. Planta, corte, quadro de áreas e quadro de esquadrias passam a ser leituras desse modelo, e não arquivos separados que alguém precisa manter em dia.

O IFC entra quando esse modelo precisa sair do seu software: para o engenheiro de estruturas, para o cliente, para um órgão público ou para um programa que monta a documentação. Este guia é para o escritório de duas a quinze pessoas que quer entender o que é BIM de verdade, o que é IFC, qual versão usar, o que é LOD, o que a lei brasileira pede e como começar sem parar o escritório.

O que é BIM, além do modelo 3D?

BIM (Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção) é um conjunto de processos e tecnologias para criar, usar, atualizar e compartilhar modelos digitais da construção ao longo de todo o seu ciclo de vida. O 3D é só uma das leituras possíveis do modelo. O que define o BIM é a informação que cada objeto carrega e o uso que se faz dela.

Essa definição não é de fornecedor de software. Está no Decreto nº 11.888/2024, que trata da Estratégia BIM BR: “o conjunto integrado de processos e tecnologias que permite criar, utilizar, atualizar e compartilhar, colaborativamente, modelos digitais de uma construção”. O Decreto nº 10.306/2020 completa com a definição de modelo BIM: uma base de dados de objetos virtuais, com informações codificadas e seus relacionamentos, que permite várias visualizações, organizações e cálculos.

Na prática do escritório, a diferença aparece assim:

SituaçãoDesenho em CAD (2D ou 3D sem informação)Modelo BIM
ParedeDuas linhas paralelas numa layerObjeto parede, com tipo, espessura, camadas, altura e pavimento
AmbienteTexto “Suíte” e uma área digitadaObjeto ambiente com nome, número, perímetro e área calculados
JanelaBloco com atributo, quando alguém lembrouObjeto janela com dimensões, peitoril, tipo e parede hospedeira
Quadro de áreasPlanilha separada, atualizada à mãoTabela que lê os ambientes do modelo
CorteDesenho feito a partir da plantaVista gerada do modelo
Mudança de layoutRefaz planta, cortes, quadros e memorialMuda o modelo, as vistas e tabelas acompanham

Um modelo 3D bonito, feito para render, sem ambientes, sem tipos de parede e sem pavimentos definidos, não é BIM no sentido útil. Ele mostra o projeto, mas não responde perguntas sobre ele. O verbete o que é BIM resume a definição para quem quer só o essencial.

BIM é software ou processo?

É processo, apoiado em software. O Revit, o Archicad e o Vectorworks são programas de modelagem BIM. Ter um deles instalado não faz o escritório trabalhar em BIM: se a equipe exporta a planta para DWG e termina o projeto no CAD, o modelo deixa de ser a fonte na primeira revisão. Se você ainda está escolhendo ferramenta, o post sobre softwares para arquitetos compara as opções de modelagem, documentação e apresentação.

A parte de processo também tem norma. A série ABNT NBR ISO 19650 trata da organização e da gestão da informação em projetos que usam BIM; a parte 1, de conceitos e princípios, foi publicada pela ABNT em 2022. Para o escritório pequeno ela é leitura de referência, não pré-requisito para começar.

Vale a pena usar BIM para escritório de arquitetura pequeno?

Vale quando o escritório faz revisões. E todo escritório faz. O ganho do BIM não está na primeira versão do projeto, que costuma levar mais tempo para modelar do que levaria para desenhar. Está na segunda, na terceira e na décima revisão, quando o modelo muda e o resto acompanha.

Pense numa casa térrea de 180 m² num lote de 12 x 30 m. O cliente pede para tirar 60 cm da sala e dar para a varanda. Num fluxo em CAD, a equipe ajusta a planta, os dois cortes que passam pela sala, a fachada, o quadro de áreas, o quadro de esquadrias se a abertura mudou, o memorial e a planta de cobertura. São sete arquivos e sete chances de esquecer um. No modelo, a parede se move uma vez. As áreas da sala e da varanda se recalculam, o corte já sai certo e a tabela de esquadrias continua batendo.

O custo também é real e vale dizer:

  • Curva de aprendizado. Os primeiros projetos em BIM demoram mais. Modelar exige decidir coisas que no CAD ficavam para depois (tipo de parede, altura do forro, nível do piso).
  • Template. Sem um template do escritório (tipos de parede, famílias de esquadria, padrões de ambiente, folhas com carimbo), cada projeto recomeça do zero.
  • Disciplina de modelagem. Ambiente desenhado com linha em vez de objeto ambiente, parede “fingida” com hachura, nível criado sem critério: o modelo aceita tudo isso, e depois não responde as perguntas que você queria fazer a ele.

O escritório pequeno tem uma vantagem aqui: decide rápido e padroniza rápido. Duas pessoas que combinam um template e uma convenção de nomes de ambiente chegam ao fluxo inteiro antes de um escritório grande terminar a reunião de implantação.

Para escolher o programa e implantar sem parar o escritório, veja a comparação Revit ou Archicad e o plano em fases para migrar do AutoCAD para o BIM.

O que é IFC e para que serve?

IFC (Industry Foundation Classes) é o formato aberto para descrever e trocar modelos BIM entre programas diferentes. É mantido pela buildingSMART International e publicado como norma internacional ISO 16739-1:2024. Um arquivo .ifc exportado do Revit pode ser aberto no Archicad, num programa de estruturas, num visualizador no navegador ou num sistema que monta documentação, sem depender do software de origem.

Segundo a buildingSMART, o esquema IFC organiza de forma padronizada a identidade dos objetos (nome, identificador único, tipo), suas características (material, cor, propriedades térmicas) e seus relacionamentos (onde estão, a que se ligam, a quem pertencem). Isso vale para elementos físicos, como pilares e lajes, e também para conceitos como custo e desempenho.

Para o arquiteto, os usos mais comuns são:

  1. Coordenar com os complementares. Estrutura, hidráulica e elétrica recebem o modelo de arquitetura como referência, mesmo usando outros programas.
  2. Entregar o modelo ao cliente ou ao contratante em formato que não expira com a licença de ninguém. O Decreto 10.306/2020 exige, nas contratações federais em BIM, a entrega dos modelos em formato aberto, não proprietário.
  3. Conferir sem abrir o software de modelagem. O gestor, o cliente ou a obra abrem o IFC num visualizador para medir, cortar e consultar propriedades.
  4. Alimentar outros programas: orçamento, análise energética, verificação de regras e geração de documentação.
  5. Arquivar o projeto. A buildingSMART cita o IFC também como forma de guardar a informação do projeto e do “como construído” no longo prazo.

O verbete IFC tem a definição curta, para quando você precisar explicar o formato a um cliente.

Para abrir um IFC sem o programa em que ele foi feito, veja como abrir arquivo IFC, com os visualizadores gratuitos e o que conferir.

O que um arquivo IFC carrega por dentro?

Um IFC de arquitetura bem exportado tem uma estrutura espacial (projeto, terreno, edificação, pavimentos e ambientes), os elementos construtivos (paredes, lajes, portas, janelas, escadas, coberturas), as propriedades de cada um e, se você pedir na exportação, as quantidades base (áreas, volumes, comprimentos).

O ambiente é a peça que mais interessa a quem documenta. No IFC ele se chama IfcSpace. A definição oficial orienta que o atributo Name guarde o número ou nome único do ambiente na planta e que LongName guarde o nome completo. Na prática: “04” e “Suíte master”. Quando o Revit ou o Archicad exportam os ambientes direito, qualquer programa que lê o IFC consegue montar uma lista de ambientes com nome e área. Quando os ambientes não saem, não há quadro de áreas que se salve.

Quais são as versões do IFC: IFC2x3, IFC4 e IFC4.3?

Há três versões que importam hoje. O IFC2x3 é a mais antiga e ainda a mais suportada. O IFC4 é a versão oficial para edificações publicada pela ISO em 2018. O IFC4.3 é a versão vigente da norma, publicada como ISO 16739-1:2024, que amplia o padrão para infraestrutura (estradas, ferrovias, pontes, portos). Todas as três aparecem como oficiais na tabela da buildingSMART.

Os dados abaixo vêm da base de especificações da buildingSMART:

VersãoNome completoPublicação ISOLançamentoSituação
IFC4.3IFC 4.3 ADD2 (4.3.2.0)ISO 16739-1:20242024-04Oficial
IFC4IFC 4 ADD2 TC1 (4.0.2.1)ISO 16739-1:20182017-10Oficial
IFC2x3IFC 2x3 TC1 (2.3.0.1)ISO/PAS 16739:20052007-07Oficial
IFC4.2 e IFC4.1Versões intermediáriasNão publicadas pela ISO2018-2019Retiradas

Duas observações de escritório. Primeiro: “IFC4” quase sempre quer dizer IFC4 ADD2 TC1, a revisão final do IFC4. Segundo: o fato de o IFC4.3 ser a versão vigente da ISO não quer dizer que todo programa já exporte nela. Na documentação atual, o Revit lista exportação em IFC4, IFC2x3 e IFC2x2 (Autodesk); o Archicad 29 já oferece IFC2x3, IFC4 e IFC4.3 nos tradutores de exportação.

Qual versão de IFC o escritório deve usar?

A que o destinatário lê. A regra parece óbvia, mas é a que mais evita retrabalho. Antes de exportar, pergunte ao engenheiro, ao cliente ou ao órgão qual versão e qual MVD (veja abaixo) eles esperam.

Sem essa resposta, o caminho seguro em 2026 é:

  • IFC2x3 Coordination View 2.0 quando você não sabe o que o outro lado usa. A Autodesk descreve essa opção como a versão certificada padrão do Revit e a mais suportada por outros sistemas.
  • IFC4 Reference View quando o destinatário confirma que lê IFC4 e vai usar o modelo como referência, sem editar. A Graphisoft avisa que o IFC4 não é suportado por todos os programas e recomenda usá-lo só com essa certeza.
  • IFC4.3 quando o projeto envolve infraestrutura ou quando o contratante pede explicitamente.

O que é MVD: Coordination View, Reference View e Design Transfer View?

MVD (Model View Definition) é o recorte do IFC que define quais dados e elementos o arquivo deve levar para um uso específico. O IFC completo descreve muita coisa; o MVD diz o que importa para coordenação, para referência ou para transferência de projeto. Na exportação, você escolhe versão e MVD juntos.

A base de MVDs da buildingSMART lista os principais assim:

MVDVersãoSituação na buildingSMARTPara que serve
Coordination View 2.0IFC2x3FinalCoordenação entre arquitetura, estrutura e instalações
Reference View 1.2IFC4FinalRepresentação simplificada para referenciar o modelo na coordenação
Reference ViewIFC4.3FinalAtualização da Reference View para o IFC4.3
Design Transfer ViewIFC4Rascunho (draft)Transferência de maior fidelidade de um programa para outro, num sentido só

A diferença prática entre Reference View e Design Transfer View: a primeira é para quem vai olhar, medir e coordenar; a segunda é para quem vai continuar o trabalho em cima do modelo. A Graphisoft descreve a Reference View como uma troca principalmente de mão única, em que alterações voltam como pedido ao autor, e avisa que a Design Transfer View não é feita para ida e volta. O IFC não substitui o arquivo nativo como formato de trabalho.

Para que serve trocar o modelo por IFC no dia a dia?

Serve para que cada pessoa do projeto trabalhe no programa que já usa, olhando para o mesmo modelo. O arquiteto modela no Archicad, o calculista recebe o IFC no programa de estruturas, o cliente abre no navegador e a obra consulta medidas sem pedir PDF novo.

Três situações comuns em escritório pequeno:

Compatibilização com estrutura. Você exporta a arquitetura em IFC, o engenheiro devolve o IFC da estrutura e você vincula ao seu modelo. Pilar que caiu no meio da porta aparece na hora, e não na obra.

Revisão com o cliente. Em vez de mandar 12 PDFs, você manda um link para o modelo. O cliente gira, entra na cozinha, vê a altura da bancada. A conversa fica mais objetiva porque ele está olhando o mesmo objeto que você.

Documentação a partir do modelo. Programas que leem IFC conseguem tirar do arquivo a lista de ambientes, as áreas, as esquadrias e as vistas, e montar quadros e pranchas sem redesenho. Isso só funciona se o IFC sair com ambientes, pavimentos e propriedades corretos, que é o assunto do post sobre como exportar IFC do Revit e do Archicad.

A troca mais frequente é a de coordenação com estrutura e instalações; o processo completo está em compatibilização de projetos.

O que é nível de desenvolvimento (LOD)?

LOD (Level of Development) é o grau em que a geometria e a informação de um elemento do modelo foram pensadas, ou seja, o quanto a equipe pode confiar nele ao usar o modelo. A especificação mais usada é a do BIMForum, gratuita, que trabalha com os níveis 100, 200, 300, 350, 400 e 500.

O próprio BIMForum separa os dois sentidos da sigla: nível de detalhe é quanto detalhe gráfico o elemento tem; nível de desenvolvimento é quanto se pode confiar nele. Uma porta muito bem desenhada, com maçaneta e batente, pode estar num LOD baixo se a posição dela ainda não foi decidida. O verbete nível de desenvolvimento (LOD) traz o resumo.

LODO que significa (resumo da especificação do BIMForum)Exemplo numa casa
100Símbolo ou representação genérica; informação aproximada, derivada de outros elementosVolume da casa com área por m² estimada
200Elemento genérico reconhecível, com quantidade, tamanho, forma e posição aproximadosParede genérica de 15 cm, janela “tipo” sem fabricante
300Elemento como projetado, com quantidade, tamanho, forma, posição e orientação mensuráveisParede com tipo definido, janela com dimensões e peitoril finais
350Como o 300, mais as interfaces com elementos vizinhos, para coordenação de obraEsquadria com a interface com a estrutura resolvida
400Detalhe suficiente para fabricação, montagem e instalaçãoCaixilho no nível de desenho de fabricação
500Elemento verificado em campo; representa o existente ou o construídoModelo de as built conferido na obra

Dois pontos que evitam briga em contrato. O BIMForum observa que projetistas raramente modelam acima do LOD 300; o 350 e o 400 costumam exigir conhecimento de quem fabrica e instala. E a especificação não diz qual LOD usar em cada etapa: ela dá a linguagem, e quem contrata define a progressão. O Decreto 10.306/2020 vai na mesma linha e manda o contratante definir o nível de detalhamento e de informação dos modelos.

Qual LOD usar em cada etapa do projeto?

Não existe tabela oficial que ligue as etapas brasileiras a um LOD. O que muitos escritórios combinam, e que você pode ajustar, é uma progressão parecida com esta: estudo preliminar com a maior parte dos elementos em 100 e 200; anteprojeto e projeto legal com paredes, ambientes e esquadrias em 200 a 300; projeto executivo com os elementos de arquitetura em 300. O ponto é escrever isso na proposta, elemento por elemento, para que o cliente saiba o que está comprando em cada entrega. O post sobre etapas do projeto de arquitetura detalha o que cada etapa entrega.

O que a lei brasileira exige de BIM? (Estratégia BIM BR)

A lei federal exige BIM em obras e serviços de engenharia da administração pública federal, em fases. Para obra privada não há obrigação federal. A base é o Decreto nº 10.306/2020, dentro da Estratégia BIM BR, hoje regida pelo Decreto nº 11.888/2024, e a Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021) manda preferir o BIM nas licitações de obras e serviços de engenharia e arquitetura quando for adequado ao objeto.

Uma correção comum: a Estratégia BIM BR foi instituída pelo Decreto nº 9.983/2019, mas esse decreto foi revogado pelo Decreto nº 11.888, de 22 de janeiro de 2024, que hoje dispõe sobre a Estratégia e cria o seu Comitê Gestor. Entre os objetivos listados está incentivar especificações técnicas abertas para a interoperabilidade em BIM, que é exatamente o papel do IFC.

As fases do Decreto nº 10.306/2020 (art. 4º), para obras consideradas de relevância para a disseminação do BIM:

FaseA partir deO que passa a ser exigido, no mínimo
Primeira1º/01/2021Modelos de arquitetura e de engenharia (estrutura, hidráulica, climatização, elétrica), detecção de interferências e compatibilização, extração de quantitativos e documentação gráfica extraída dos modelos, em projetos de grande relevância
Segunda1º/01/2024Os usos da primeira fase, mais orçamentação, planejamento e controle da obra e atualização do modelo como construído (as built), também na gestão de obras de grande relevância
Terceira1º/01/2028Os usos anteriores, mais gerenciamento e manutenção depois da obra, estendendo a exigência a empreendimentos de média ou grande relevância

O decreto vincula diretamente o Ministério da Defesa e atividades do então Ministério da Infraestrutura (aviação civil regional e obras de arte especiais do DNIT); os demais órgãos federais podem adotar. Dois detalhes interessam ao escritório que participa de licitação: o art. 6º exige a entrega dos modelos e documentos em formato aberto, não proprietário, além do formato pedido no edital; e o art. 4º já coloca “documentação gráfica extraída dos modelos” entre os usos mínimos. Em outras palavras, o desenho tem que sair do modelo, não ser refeito ao lado.

No art. 19, § 3º da Lei nº 14.133/2021, o texto é: nas licitações de obras e serviços de engenharia e arquitetura, sempre que adequada ao objeto, “será preferencialmente adotada a Modelagem da Informação da Construção”. Vale para os órgãos que licitam pela lei, nas três esferas. Estados e municípios podem ter regras próprias, então confira o edital.

Como tirar a documentação do modelo em vez de redesenhar?

Trate o modelo como a única fonte e gere tudo a partir dele: plantas, cortes e fachadas como vistas; quadro de áreas e de esquadrias como tabelas que leem objetos; memorial a partir dos tipos e materiais. Quando algo está errado no documento, corrija no modelo e gere de novo. O dia em que alguém “acerta só no PDF” é o dia em que o modelo deixa de ser confiável.

O caminho, na ordem em que costuma dar resultado:

  1. Ambientes como objetos. Todo ambiente modelado com a ferramenta de ambiente (Room no Revit, Zona no Archicad), com nome e número. É o que alimenta o quadro de áreas e a lista de acabamentos.
  2. Pavimentos com critério. Só os níveis que são pavimento de verdade marcados como pavimento. Nível auxiliar de platibanda ou de reservatório não é pavimento.
  3. Tipos de parede e de esquadria nomeados. “Parede 15 cm bloco cerâmico reboco 2 faces” diz mais que “Genérica 150”. O quadro de esquadrias e o memorial leem esses nomes.
  4. Vistas e tabelas no template. Planta de cada pavimento, cortes, fachadas, quadro de áreas e quadro de esquadrias já configurados, com o carimbo do escritório nas folhas. O post sobre pranchas ABNT, formatos e carimbo cobre a parte de folha.
  5. Área legal calculada à parte da área geométrica. O modelo sabe a área do ambiente; quem diz o que é computável é a lei municipal. Veja como calcular o quadro de áreas e o verbete de área computável.
  6. Revisões numeradas. Cada versão do modelo enviada tem número (R00, R01, R02), e a documentação daquela versão sai junto.

Esse é o raciocínio por trás do Croqui. O Croqui é um software online para escritórios de arquitetura e interiores que transforma o modelo IFC ou DWG no pacote documental do projeto: quadros, quadro de áreas, memorial descritivo, pranchas ABNT e pré-checagem de conformidade, que se refazem a cada revisão do modelo. Você sobe o IFC exportado do Revit ou do Archicad e trabalha a partir dele: o quadro de áreas legal, o memorial descritivo gerado do modelo e as pranchas em folha ABNT com carimbo. Quando o modelo muda, a página de revisões mostra o que mudou entre as duas versões (ambientes, áreas, esquadrias) e a documentação é refeita. Você revisa e assina; a responsabilidade técnica continua sua.

O pilar sobre documentação de projeto de arquitetura organiza o pacote inteiro, do estudo ao executivo, e o post sobre como fazer memorial descritivo mostra a estrutura do texto.

O que se perde na exportação para IFC?

Perde-se tudo o que é específico do seu programa e tudo o que você não mandou exportar. O IFC é um formato de troca, não uma cópia do arquivo nativo. Saber o que fica para trás evita a surpresa de o engenheiro abrir o modelo e não achar os ambientes.

O que costuma ficar para trás ou chegar diferente:

  • Parametria. A Graphisoft explica que, quando os elementos saem como geometria BREP (superfícies), a forma fica fiel, mas os parâmetros se perdem e o elemento chega ao outro lado como não editável. Exportar como paramétrico mantém espessura e altura, mas pode simplificar cortes especiais.
  • Famílias e objetos sem correspondência. O Revit exporta paredes como paredes IFC sem você fazer nada, mas famílias de categorias genéricas (o exemplo da Autodesk é uma escada rolante) precisam ser mapeadas para a classe IFC certa. Sem isso, chegam como “proxy”, um objeto genérico sem significado.
  • Ambientes. Saem só se forem objetos de ambiente, se estiverem na fase e na vista exportadas e se a opção correspondente estiver ligada.
  • Desenho 2D e anotação. IFC é modelo, não prancha. Cotas, textos, hachuras e folhas não viajam como desenho pronto. O Revit só exporta notas e regiões preenchidas se você marcar a opção de elementos 2D; o Archicad exige habilitar os elementos 2D no tradutor.
  • Propriedades personalizadas. Parâmetros que você criou só vão se estiverem mapeados para conjuntos de propriedades na exportação.
  • Quantidades. Áreas e volumes calculados pelo programa só entram como “quantidades base” se a opção estiver marcada. E a Autodesk lembra que essas quantidades vêm da geometria, independentes de regras de medição, ou seja, não são a área legal da prefeitura.
  • Posição. Se o ponto de origem e as coordenadas não foram tratados, o modelo da arquitetura e o da estrutura chegam deslocados um do outro.

O passo a passo de cada configuração, com os nomes das opções no Revit e no Archicad, está no post sobre como exportar IFC do Revit e do Archicad.

Como conferir um arquivo IFC antes de mandar?

Abra o arquivo num visualizador IFC e confira o que o destinatário vai ver. A Graphisoft recomenda isso como boa prática depois de cada exportação. Leva cinco minutos e evita a ligação do engenheiro dizendo que o modelo chegou sem o segundo pavimento.

O roteiro mínimo:

  1. A árvore espacial tem um terreno, uma edificação e os pavimentos certos, sem pavimento a mais.
  2. Os ambientes aparecem, com nome e número, e a quantidade bate com a planta.
  3. Clicando num ambiente, a área aparece nas propriedades ou nas quantidades.
  4. Portas e janelas são portas e janelas, não objetos genéricos.
  5. Uma medida conhecida (pé-direito, largura de um vão) confere quando medida no visualizador.
  6. Um corte passando pela escada mostra a escada inteira.

Para isso não precisa de licença de nada. Um visualizador IFC online abre o modelo no navegador e deixa orbitar, medir, cortar e isolar elementos, o que basta para essa conferência e para mostrar o projeto ao cliente.

Como começar com BIM num escritório pequeno?

Comece por um projeto real e pequeno, com o objetivo de tirar dele a documentação inteira, e não por um curso genérico de software. Um projeto que vai do modelo às pranchas ensina mais sobre o fluxo do que dez exercícios de modelagem.

Um roteiro de seis passos que funciona para equipes de duas a dez pessoas:

  1. Escolha o projeto piloto. Uma casa ou reforma de porte médio, com prazo folgado. Evite começar pelo projeto mais urgente do ano.
  2. Monte o template mínimo. Quatro ou cinco tipos de parede que o escritório realmente usa, famílias de porta e janela com os parâmetros do seu quadro de esquadrias, padrão de nomes de ambiente, folha A1 e A3 com carimbo. Melhore a cada projeto.
  3. Combine as convenções por escrito. Como nomear ambientes (“Suíte 01”, não “suite”, “SUITE” e “quarto casal” no mesmo projeto), o que é pavimento, quem cria família nova. Uma página resolve.
  4. Modele para documentar, não para renderizar. Ambiente como objeto, parede com tipo correto, esquadria com dimensão real. O render vem depois e sai melhor de um modelo correto.
  5. Exporte e confira o IFC cedo. Já no estudo preliminar, exporte, abra num visualizador e veja se ambientes e pavimentos saem. Corrigir o fluxo no começo custa menos que na véspera da entrega.
  6. Tire uma entrega inteira do modelo. Quadro de áreas, quadro de esquadrias, plantas, cortes e memorial, sem nada redesenhado em CAD. Na primeira revisão do cliente, você mede o ganho.

Quais erros atrasam a adoção do BIM?

Os mesmos se repetem em quase todo escritório que começa:

  • Voltar para o CAD no meio do projeto porque “é mais rápido para ajustar”. A partir dali, toda revisão é feita duas vezes.
  • Modelar demais cedo. Detalhe de rodapé no estudo preliminar consome horas que o cliente vai mandar refazer. Siga o LOD combinado.
  • Template que ninguém mantém. Família corrigida num projeto e não levada para o template volta errada no próximo.
  • Não conferir o IFC. O problema aparece só quando o complementar reclama, normalmente perto do prazo.
  • Confundir área do modelo com área legal. O ambiente sabe sua área; a prefeitura quer área computável, não computável, taxa de ocupação e coeficiente de aproveitamento, cada um com a regra do plano diretor local.

Resumo para levar ao escritório

BIM é trabalhar com um modelo que sabe o que cada coisa é e tirar dele os desenhos e quadros, em vez de manter arquivos paralelos. IFC é o formato aberto (ISO 16739-1:2024) que leva esse modelo para fora do seu software. Na dúvida sobre versão, IFC2x3 Coordination View 2.0 é o mais aceito e IFC4 Reference View é o mais novo para referência. LOD é o quanto se pode confiar em cada elemento e precisa estar na proposta. A lei federal exige BIM em obras públicas federais desde 2021, em fases, e pede entrega em formato aberto; para obra privada, o motivo de adotar é a revisão que deixa de ser retrabalho.

Perguntas frequentes

Escritório pequeno de arquitetura precisa usar BIM?

Não há obrigação legal para obra privada. O Decreto 10.306/2020 vale para obras e serviços da administração pública federal, e a Lei 14.133/2021 manda preferir BIM nas licitações quando for adequado ao objeto. Para o escritório pequeno, o motivo prático é outro: quando o projeto muda, quadros, áreas e cortes saem do mesmo modelo, em vez de serem refeitos à mão em vários arquivos. Quem atende licitação ou trabalha com complementares em BIM sente a necessidade antes.

Qual a diferença entre BIM e IFC?

BIM é o processo: modelar a construção como objetos com informação e usar esse modelo para projetar, documentar, coordenar e construir. IFC é um formato de arquivo aberto, mantido pela buildingSMART e publicado como ISO 16739-1:2024, que serve para trocar esse modelo entre programas diferentes. Você trabalha em BIM dentro do Revit, do Archicad ou de outro software, e usa o IFC quando precisa entregar o modelo para alguém que não usa o mesmo programa.

Devo exportar em IFC2x3 ou IFC4?

Depende de quem recebe. O IFC2x3 com Coordination View 2.0 ainda é a opção que a Autodesk descreve como a mais suportada por outros sistemas, por isso é o padrão do Revit. O IFC4 Reference View é a versão mais nova para modelo de referência e já é oficial na buildingSMART, mas a própria Graphisoft recomenda usá-lo só quando você tem certeza de que o programa de destino lê IFC4. Na dúvida, pergunte ao destinatário ou mande os dois.

O que é LOD no projeto de arquitetura?

LOD é o nível de desenvolvimento de cada elemento do modelo: quanto se pode confiar na sua geometria e na sua informação. A especificação do BIMForum usa os níveis 100, 200, 300, 350, 400 e 500, do símbolo genérico até o elemento verificado em obra. LOD não é sinônimo de quantidade de detalhe gráfico, e a especificação não diz qual LOD usar em cada etapa: isso precisa ser combinado em contrato com o cliente ou o contratante.

Dá para abrir um arquivo IFC sem ter Revit ou Archicad?

Sim. O IFC é um formato aberto e existem visualizadores que abrem o arquivo, inclusive no navegador, sem licença do software de origem. Num visualizador você confere pavimentos, ambientes, propriedades e medidas, faz cortes e isola elementos. A própria Graphisoft recomenda abrir o IFC num visualizador depois de exportar, para conferir se o que saiu é o que você esperava antes de mandar ao cliente ou aos complementares.

Fontes

  1. 01buildingSMART International: Industry Foundation Classes (IFC), introdução
  2. 02buildingSMART International: IFC Schema Specifications (versões e publicações ISO)
  3. 03buildingSMART International: MVD Database
  4. 04buildingSMART International: definição de IfcSpace no repositório oficial do IFC 4.3
  5. 05Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020 (Planalto)
  6. 06Decreto nº 11.888, de 22 de janeiro de 2024: Estratégia BIM BR (Planalto)
  7. 07Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021: Lei de Licitações e Contratos (Planalto)
  8. 08BIMForum: Level of Development (LOD) Specification
  9. 09Autodesk: About Revit and IFC (Revit 2027)
  10. 10Autodesk: IFC Export Setup Options (Revit 2027)
  11. 11Graphisoft: Model View Definitions (Archicad 29)
  12. 12Graphisoft: Export IFC Model (Archicad 29)
  13. 13ABNT NBR ISO 19650-1: Organização da informação acerca de trabalhos da construção, Parte 1 (ficha na Target)

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